sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

E ainda falam da Bahia

Escola de samba perde o título por usar samba "reciclado" de uma congênere paulista, concurso da Assembleia Legislativa é anulado por ter tido várias questões chupadas de outros concursos, prefeitura paga uma fortuna por uma árvore de 60 metros que na verdade tem 43 metros, diretor de presídio leva detento em carro oficial para cobrar dívidas de tráfico... Pelo jeito, a única lei em vigência aqui em Santa Catarina é a do menor esforço.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

No país da falta de delicadeza

Cena triste no banco. Uma senhora que não compreendeu de imediato o funcionamento da porta giratória foi alvo da impaciência do guarda, que, aos gritos do lado de dentro, tentava demonstrar a ela onde era preciso colocar a carteira. Todos os clientes que estavam do lado de dentro passaram a acompanhar a cena. Era visível o quanto aquela senhora estava constrangida por ser o alvo das atenções. Nenhum funcionário tomou a iniciativa de efetivamente auxiliá-la. Alguns, ao contrário, sorriam ironicamente. Quando finalmente conseguiu entrar, com ajuda de outro cliente que chegava, a humilde e digna senhora baixou a cabeça e pediu desculpas ao guarda.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Lua, tucano, ondas, pedras e nuvens

Acabo de passar alguns bons minutos esperando que as nuvens abrissem espaço para que a lua, até então parcialmente encoberta, pudesse enfim brilhar em todo o seu misterioso encanto. Vi a cena pela janela e me senti impelido a acompanhar a evolução daquele suave balé celeste. Foi o terceiro momento marcante de contemplação da natureza neste final de semana. Ontem, após ultrapassar um amontoado de rochas de uma praia pouco frequentada de Governador Celso Ramos, eu e o Lauro encontramos um recanto repleto de pedrinhas de diferentes cores e formatos, esculpidas pela ação das ondas - e lá ficamos um bom tempo à procura das "especiais". Demos uma de presente para a Lígia e ela adorou, a ponto de conversar com a pedra, dar banho e colocá-la para dormir. Hoje, a família inteira avistou um tucano (o mais lindo que já vi, com peito vermelho) em uma pequena árvore a poucos metros de onde estávamos. Nessas horas fica difícil continuar acreditando na inexistência de Deus.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Rumo ao topo dos mais vendidos


Tão logo acabei de ler a mais recente obra de Lira Neto, a excelente biografia do Padre Cícero, escrevi esta resenha, publicada no Diário Catarinense de hoje. Como brinde aos leitores do Vida de Frila, segue uma pingue-pongue com o autor, não incluída no site do jornal.

Cearense como o seu biografado, o jornalista Lira Neto, 45 anos, radicado em São Paulo desde 2003, tornou-se um dos autores mais bem-sucedidos – e disputados – do mercado editorial brasileiro. O livro sobre o Padre Cícero marca sua estreia na Companhia das Letras, depois da boa repercussão de duas obras publicadas pela Editora Globo – Maysa: Só Numa Multidão de Amores, base da minissérie da TV Globo sobre a cantora, e O Inimigo do Rei, biografia do escritor José de Alencar, Prêmio Jabuti de melhor biografia em 2007.

Quais são as suas primeiras recordações do Padre Cícero?
Nasci em Fortaleza. Historicamente, entre as classes médias da capital cearense, o nome de Padre Cícero é visto com ressalvas e prevenções. Talvez isso seja ainda resquício das feridas abertas pela Sedição de Juazeiro. Por isso, cresci ouvindo histórias pouco edificantes sobre o padre. Os mais velhos diziam que ele era um embusteiro, que queria dominar o mundo. Mais tarde, já na universidade, tive contatos com certa produção teórica a respeito de Cícero, livros e tratados acadêmicos que procuravam explicar o fenômeno por um viés marxista e que, quase sempre, não davam conta da complexidade do personagem. Somente durante a fase de pesquisa, ao descer às fontes primárias, ao consultar os documentos históricos, fui conhecendo melhor Cícero e suas circunstâncias.

Como foi o processo de apuração? A Igreja colaborou com a sua investigação?
Nos últimos anos fui quatro ou cinco vezes a Juazeiro, onde mergulhei no universo das romarias, visitei lugares históricos e fiz todo um trabalho de imersão na atmosfera e nos cenários por onde o biografado trilhou e andou. Tive a sorte de contar com a generosidade de grandes pesquisadores do tema, que me forneceram valiosa contribuição documental. Na Diocese do Crato, tive acesso também a um amplo e valioso material, composto de cerca de 900 cartas trocadas entre os protagonistas da história, o que inclusive serviu de espinha dorsal do trabalho. Também tive acesso, por meio de fontes privilegiadas, a documentos oriundos do Arquivo Secreto do Vaticano. A todo instante e a todas as fontes, sempre deixei clara a minha posição de jornalista agnóstico, de alguém que não pertence a nenhuma religião e que não é dado a acreditar em milagres. Meu compromisso ético foi o de fazer uma pesquisa rigorosa, uma investigação séria e isenta, sem cair na armadilha da apologia, de um lado, ou da mera desconstrução, de outro.

A longa trajetória de Padre Cícero tem vários aspectos surpreendentes. Que momento da pesquisa o deixou mais surpreso?
Difícil escolher, na vertiginosa trajetória de Padre Cícero, um determinado momento, um episódio específico que possa ser posto em destaque. Mas posso dizer que, se a pesquisa nos documentos eclesiásticos me eletrizou, também me senti arrebatado pela riqueza de informações e de peripécias do Padre Cícero político. Se o livro fosse um romance, provavelmente seria acusado pela crítica pela presumida inverossimilhança de muitas cenas. Não é fantástico constatar que aquilo tudo ali descrito e narrado, por mais que pareça ter saído da cachola de um ficcionista em estado de delírio, aconteceu realmente?

Quais parecem ser as chances efetivas de que o Padre Cícero venha a ser reconhecido como santo pela Igreja? Que etapas precisam ser vencidas?
O que parece evidente é que a reabilitação do padre – que morreu proscrito da Igreja – já está em pleno vigor. Ela será oficializada em um prazo de tempo bem reduzido, presumo. Para o Vaticano, reabilitar Cícero significa anistiá-lo das penas a que ele foi condenado em vida. O avanço evangélico no interior do Brasil compõe o pano de fundo desse processo bem visível de reincorporar Cícero ao catolicismo. Deixar que ele permaneça à margem da liturgia significa ignorar, igualmente, uma legião de milhões e milhões de devotos, peregrinos e romeiros que o tem na conta de um santo. Contudo, é preciso deixar claro que a reabilitação é apenas o primeiro passo para uma possível posterior beatificação e, em seguida, uma presumida canonização. Nesses casos, para oficializar alguém como santo, o rito da Santa Sé costuma ser lento. Por isso, é impossível estabelecer datas e arriscar previsões. Mas uma coisa é fato: a Igreja está pavimentando, desde já, o caminho para tal.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Futebol é arte

O sorteio dos grupos da Copa do Mundo, há pouco, trouxe de volta uma lembrança fascinante da infância: os pôsteres de todas as edições do torneio. No da próxima Copa, reproduzido ao lado, o contorno da cabeça do jogador lembra o formato do continente africano.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Que venham os paulistas

Assino na Viagem & Turismo de dezembro um especial sobre Santa Catarina, focado em Jurerê Internacional e Governador Celso Ramos.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Sentimento agridoce

Hoje foi meu último dia na editora. Depois de três meses, volto a ser dono de 100% do meu tempo. Mas foi uma experiência interessante e sentirei saudades.

Coisas idiotas que a gente faz

Noite passada, dirigindo pela Avenida Beira-Mar, vi meu ex-carro andando logo à frente. Apesar dos disfarces - uma série de adesivos meigos -, reconheci pela placa. Achei uma coincidência tão grande que senti necessidade de compartilhar com quem o dirigia. Parei ao lado no semáforo. Havia uma jovem ao volante e uma senhora de uns 50 anos no carona. Fiz um sinal demonstrando que queria dizer algo, mas a caroneira, que poderia simplesmente abaixar o vidro e me ouvir, levantou o dedo e fez nana-nina-note com cara de emburrada. Deve ter imaginado que eu queria cantar a moça - ou ela própria, sei lá. Tudo bem que eram dez e meia da noite, mas, caramba!, estamos em Floripa e aqui as pessoas deveriam relaxar mais. Não desisti e passei a mensagem por mímica. A moça entendeu e sorriu (ainda bem, porque a sequência de gestos - apontar para o carro dela e depois para mim - poderia ser interpretada como "vou roubar o seu carro"). Enquanto a jovem explicava tudo para a bru..., digo, para a pessoa ao lado, o semáforo abriu e segui adiante, pensando no papelão ridículo que eu havia feito. Por que diabos tal informação interessaria à nova dona do carro?

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Que o desfecho seja honesto

O Flamengo será campeão com méritos, claro, mas não há como negar que terá sido incrivelmente ajudado nas duas últimas rodadas. Ontem o Corinthians claramente fez corpo mole para prejudicar os rivais São Paulo e Palmeiras na luta pelo título, assim como o Grêmio deverá fazer contra o mesmo Flamengo, na rodada decisiva do campeonato, para não deixar o Inter ser campeão. A não ser que o Grêmio comprove ser tão grande quanto sua história demonstra e jogue para valer, sem se preocupar se o campeão será o Inter, o Palmeiras ou o São Paulo, clubes que dependem dele para continuar sonhando com o título. É a credibilidade do futebol brasileiro que está em jogo, algo bem mais importante que as rivalidades regionais.

Uma placa para a história

Eu tinha sete anos quando ocorreu a Novembrada, há exatas três décadas. Em 1994 acabei sendo testemunha, no entanto, de um momento importante relacionado ao movimento - que, para muitos analistas, representa o início da derrocada da ditadura militar no Brasil. Estudante de jornalismo, eu integrava o movimento "Cem Anos de Humilhação", que tinha como objetivo substituir o nome Florianópolis, imposto um século antes por puxa-sacos do presidente Floriano Peixoto ao final da Revolta da Armada. Estávamos organizando um julgamento simulado de Floriano para marcar o centenário do topônimo, quando surgiu uma testemunha-bomba: o coronel Nilo Marques nos procurou para contar que estava com a placa em homenagem ao "Marechal de Ferro", um dos estopins da revolta popular em 1979. Componente da guarda que fazia a segurança do presidente Figueiredo, ele recolheu a placa e a guardou em segredo por 15 anos, conforme relatado nesta matéria que integra a bela cobertura do Diário Catarinense sobre o tema. Levamos o coronel para contar essa história no julgamento, diante do auditório da UFSC lotado. Eu era um dos três advogados de acusação e a nossa tarefa ficou bem mais fácil com o belo relato feito pelo coronel. Floriano foi condenado. Pena que o nome em sua homenagem continua manchando a honra desta bela cidade.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

The simple life

Este blog, dois endereços de e-mail, um telefone fixo, um celular e o acesso à internet são agora meus únicos canais de comunicação com o mundo. E pretendo ainda unificar os e-mails e os telefones tão logo seja possível. Desisti há um bom tempo do MSN, resisti ao Twitter, pulei fora do Orkut e acabo de abandonar a última lista de discussão da qual participava. Sei que estou na contramão ao me transformar em um ermitão virtual. Não estou dizendo que estou certo e nem criticando quem usa todos os canais que a tecnologia oferece. É apenas parte da minha busca.

E o transporte marítimo?

Enquanto as pontes de acesso à Ilha de Santa Catarina estão cada vez mais congestionadas e o trânsito em Floripa à beira do caos (a temporada de verão vai ser um inferno sem precedentes), não dá para entender porque o transporte marítimo entre o continente e a ilha, vocação óbvia da cidade, não é implantado de uma vez. Só pode ser por lobby das empresas de ônibus, que prestam um serviço caro e ruim. A forma como o tema da mobilidade urbana tem sido discutido na Câmara de Vereadores (leia no Damião) dá uma boa ideia de como andam as coisas por aqui.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Quatro livros no gatilho

Para terminar a exaltação umbiguística que foi esta sequência de posts, eu queria contar que os últimos três meses foram pródigos também em articulações literárias. Fechei com uma editora aqui de Floripa a publicação da biografia do flautista Patápio Silva, objeto da minha dissertação de mestrado em História. Deve sair ainda no primeiro semestre de 2010. Tenho um outro projeto em andamento com uma editora de São Paulo, cujo tema ainda não posso revelar, para publicação também em 2010 (vou me dedicar com tudo a esse projeto agora na virada do ano). Um dos livros que eu havia escrito para a Letras Brasileiras (e que ajudei a editar agora, na minha passagem pela editora) será publicado em breve - é um tema muito interessante relacionado à história de Santa Catarina. E tem ainda uma dobradinha texto-foto que eu e a Cris bolamos para ir produzindo aos poucos, nas "horas vagas".

O verão chegou

E a máquina quatro meu cabelo raspou.

Anotações do cotidiano

Estou desacelerando aos poucos. Ontem devorei algumas dezenas de páginas da biografia do John Lennon que a Ana Paula me deu de aniversário e me concedi o direito de ver um filme - Incendiário, com Michelle Williams em grande desempenho. Hoje trabalhei na editora pela manhã e saí no meio da tarde para caminhar com o Lauro (tomamos um picolé para celebrar o início das férias do menino, que passou direto, sem recuperação). Concluí há pouco um texto para a Exame, estou terminando outro para a Você S/A e amanhã escrevo uma matéria para o Valor que já está toda apurada. Com esses trabalhos, para três publicações com as quais colaborei ao longo de todo o ano, encerro uma sequência que testou meu sangue frio - houve momentos em que achei verdadeiramente que não daria conta. Mas, como diz o ditado, o que não mata engorda. Literalmente. Vejo pelas minhas bochechas que estou precisando fazer exercícios.

Noventa dias de loucura

Antes de setembro, eu achava que trabalhava muito. Nos últimos três meses, contudo, descobri o que é trabalhar muito DE VERDADE. Cumpri meio expediente na Letras Brasileiras e continuei tocando meus frilas no mesmo ritmo de antes. Às vezes as duas coisas se misturavam - eu lá na editora e uma fonte ligava no meu celular em resposta a um pedido de entrevista, por exemplo -, mas acho que consegui cumprir tudo a contento. Isso só foi possível graças à relação de confiança e respeito mútuos que tenho com o pessoal da editora, a quem agradeço desde já, a uma semana da minha despedida. Já estou com saudades e adoraria ficar, mas a vida de frila - da qual não penso em abrir mão por enquanto - é essencialmente solitária. Tenho certeza que fiz bons amigos, no entanto, e isso é que importa.